Schubert, Sífilis e Mercúrio

O segundo andamento do trio para piano, violino e violoncelo nº 2 de Franz Schubert, encontra-se entre as suas composição mais conhecidas. Já figurou na banda sonora de alguns filmes de renome como Barry Lyndon, de Stanley Kubrick, ou A Pianista, de Michael Haneke. Neste último filme aborda-se uma questão interessante da personalidade de Schubert, o seu estado depressivo e comportamento alterado em especial nos anos que antecederam a sua morte em 1828 com apenas 31 anos de idade . Porque era assim? Haveria alguma razão especial?

Parece ser consensual (1,2) que Schubert sofria de Sífilis (embora a causa de morte tenha sido aparentemente febre tifóide), uma doença sexualmente transmissível causada pela bactéria Treponema pallidum e bastante comum entre compositores e artistas até finais do Sec. XIX (3). Nos estádios iniciais, esta doença manifesta-se pelo aparecimento de erupções dérmicas, normalmente indolores (ver figura abaixo) podendo depois a doença ficar dormente durante vários anos. Contudo, a doença pode afetar vários orgãos, incluindo o Sistema Nervoso Central, altura em que se designa de Neurossífilis (4). Os sintomas típicos de neurosífilis incluem entre outros, tremores e comportamento alterado (4,5).

Estádios primário (imagem da esquerda) e secundário (imagem da direita)
de uma infecção por sífilis (Fonte)

A doença pode ser particularmente grave em pessoas infectadas com HIV ou em mulheres grávidas causando efeitos severos a nível do feto (Sífilis congenital). Existe no entanto tratamento que consiste na utilização de antibióticos, nomeadamente derivados da penicilina (5).

Contudo, até ao advento dos antibióticos, um tratamento comum para a sífilis consistia na utilização de mercúrio na forma de vaporizações, injecções sub-cutâneas ou aplicação tópica de unguentos de sais de Hg. Em meados do sec XVI, Paracelsus, o pai da Toxicologia, chegou inclusivé a afirmar que o Hg era o único tratamento eficaz para a sífilis. Havia contudo um pequeno problema… os efeitos tóxicos do Hg suplantavam frequentemente os benefícios do seu uso, como muito enfaticamente rezava um ditado popular à época: “uma noite com Vénus e uma vida inteira com Mercúrio“.

As manifestações neurotóxicas do Hg são particularmente evidentes e incluem alterações a nível psicológico (depressão, timidez excessiva e comportamento anti-social) e físico (e.g. tremores e falta de coordenação- ver figura), que compõem um quadro sintomatológico conhecido como mercurialismo ou simplesmente a Doença do Chapeleiro Louco. Este último nome deve-se ao facto de o envenenamento por Hg ser comum entre os chapeleiros que usavam Hg para curar o feltro dos chapéus que fabricavam (6). Não é por acaso que a personagem de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll é o Chapeleiro Louco (embora a excentricidade da personagem não encaixe nos sintomas típicos de mercurialismo).

slide1

Degradação da caligrafia com o tempo após exposição
aguda a vapor de Hg (Fonte)

Fica então a questão: até que ponto a exposição a Hg contribuiu para a aparente degradação mental de Schubert?

Até breve!

Referências Bibliográficas:

(1) Sams, E. 1980. Schubert’s Illness Re-Examined. The Musical Times 121: 15-19,21-22. (link)

(2) Newbould, B. 1997. Schubert: The Music and the Man. University of California Press, 465 pp. (link)

(3) Franzen, C. 2008. Syphilis in composers and musicians—Mozart, Beethoven, Paganini, Schubert, Schumann, Smetana. Eur J Clin Microbiol Infect Dis 27: 1151-1157. (link)

(4) Rao A., et al., 2015. Neuroshyphilis: an uncommon cause of Dementia. J Am Geriatr Soc 63: 1710-1712. (link)

(5) Centers for Disease and Control Prevention. Syphilis – CDC Fact Sheet (Detailed). Updated November 17, 2016 (link)

(6) Clarkson, T. W. and Magos, L. 2006. The toxicology of mercury and its chemical compounds. Crit. Rev. Toxicol. 36: 609-662.(link)

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