Frank Zappa, Cosmik Debris e Pseudociência

A música que abre o blog, Cosmik Debris, foi escrita por Frank Zappa por volta de 1974 e é uma sátira aos “gurus” que gravitam em torno do meio artístico. O alvo da canção é L. Ron Hubbard fundador da Cientologia, que sempre foi popular entre membros da cena musical como por exemplo, o pianista Chick Corea ou o cantor Beck.

O refrão reza, “Look here brother! Who You’re jivin’ with that cosmic debris?!”, que é como quem diz “Queres enganar quem?”. De charlatães está o mundo cheio e a ciência não é excepção, desde casos de fraude, plágio e claro pseudociência. A Pseudociência, por oposição à Ciência, não é para levar a sério mas com o advento da internet parece ganhar mais e mais adeptos. Atentemos ao caso do movimento anti-vacinação.

Desde a sua introdução que as vacinas permitiram salvar milhões de vidas. No entanto ainda há quem ache que elas são desnecessárias, que são demais, que nos são impostas por uma conspiração secreta da big pharma e que são a causa de várias doenças, como o autismo. No caso do autismo em particular, tudo começou com um artigo publicado em 1998 na revista The Lancet, da autoria de Andrew Wakefield e colaboradores. No dito artigo era afirmado que algumas crianças inoculadas com a vacina VASPR (Vacina Anti Sarampo Papeira e Rubéola) tinham desenvolvido uma regressão comportamental típica de autismo, entre outros sintomas. O artigo foi uma espécie de pedrada no charco que fez soar alarmes por todo o lado entre pais, profissionais de saúde e agências reguladoras. Havia apenas um problema… os dados eram fraudulentos e o artigo acabou por ser retirado de circulação.

No entanto, o mal já estava feito, levando muitos pais a não vacinarem os filhos e  os movimentos anti-vacinação a persistirem na sua cruzada. Um dos assuntos preferidos destes movimentos é o mercúrio (Hg) nas vacinas, pelo que aqui se dedica  uma análise mais detalhada.

Quando se fala em Hg nas vacinas está na realidade a falar-se em vacinas que contém um conservante chamado Timerosal (também designado como Tiomersal ou Mertiolato). Este composto é um conjugado de etilmercúrio (EtHg) com ácido tiossalicílico que, dadas as propriedades anti-microbianas do mercúrio, é adicionado a vacinas de dose múltipla (vacinas de cujo frasco se podem tirar várias doses) de modo a permitir a sua preservação.

A maioria das vacinas utilizadas hoje em dia no dito mundo desenvolvido são uni-dose, pelo que não contêm este composto. A excepção são algumas vacinas utilizadas em situações de pandemia – que requerem uma reposta mais rápida e económica em termos de produção industrial – como por exemplo a Pandermix que foi a distribuída em Portugal aquando da pandemia de gripe A. A dose de Timerosal nas vacinas é alta? A resposta mais simples é não, mas é mais fácil perceber porquê com um exemplo didático utilizando informação de um site “naturalista” (que promove pseudociência e anti-vacinação) que está na figura abaixo:

infographic-how-much-mercury-is-really-in-a-flu-shot-600

Imagem retirada de:
http://www.naturalnews.com/045418_flu_shots_influenza_vaccines_mercury.html

Como a figura acima afirma, os “técnicos” do site em causa terão analisado a quantidade de Hg existente em diversas matrizes: água, peixe e numa vacina da gripe. Assumindo que, os valores que reportam estão corretos (e esta já é uma grande assumpção) podemos decompor os valores. Há que ter em conta que ppb (partes por bilião) é equivalente a microgramas por litro ou microgramas por quilograma. Um micrograma é 1000 vezes menos que um miligrama. Assim, de acordo com os dados da figura:

  • O valor permitido pela EPA na água para consumo é de 2 ppb ou seja 2 microgramas por litro
  • O valor típico no atum é 250 ppb = 250 microgramas por kilograma
  • O peixe mais contaminado terá 500 ppb = 500 microgramas por quilograma
  • A vacina da gripe que eles testaram, imagine-se, tem 51 000 ppb= 51 000 microgramas/ litro = 51 miligramas/litro.

Assustador, certo? Na realidade não, pois há que ter em conta a dose ingerida/inoculada. Comparando o atum com a vacina:

  •  Se ingerir-mos numa refeição normal de 150 g de atum isso implica que estamos a ingerir 37.5 microgramas de Hg;
  • Se formos inoculados com a vacina da gripe cuja dose é 0.5 mL* (ver Imagem abaixo), significa que estamos a receber 25.5 microgramas de Hg.

* A dose é igual à da Pandermix. Esta última previa uma dose para crianças de 0.25 mL

Há que também ter em conta que, a absorção do Hg dos alimentos é muito alta (> 95 %) pelo que a questão de a via de administração ser diferente nem sequer se coloca! Como tal ingerimos mais Hg ao comer uma refeição de atum do que ao receber uma vacina da gripe que contenha Hg (e nem todas contêm).

flulaval-flu-shot-influenza-640Imagem retirada de:
http://www.naturalnews.com/045418_flu_shots_influenza_vaccines_mercury.html

Quais são as implicações toxicológicas da adição deste composto às vacinas? Na realidade o conhecimento da toxicologia específica deste composto ainda não é tão vasto como por exemplo para outra forma de Hg, o metilmercúrio (MeHg) que existe no peixe. No entanto, os dados disponíveis apontam para que a toxicidade seja semelhante à deste último. E o que quer isto dizer?

Para todos os compostos de Hg a toxicidade é mais preocupante nas grávidas (o Hg atravessa a placenta e atinge o feto) e crianças jovens. Os compostos de mercúrio são contaminantes que obedecem à lógica “a dose faz o veneno”, isto é em doses baixas de exposição não representam problemas de maior, uma vez que a acumulação nunca atinge valores que desencadeiem toxicidade. Apenas quando a exposição ultrapassar determinados valores, se pode tornar preocupante e na maioria dos casos isso não acontece (este será assunto de um post futuro).

Dado que o espaçamento entre vacinas é relativamente alargado e a dose baixa, não há risco de acumulação de Hg a níveis que possam causar toxicidade,  ainda para mais quando a esmagadora maioria das vacinas não contém este composto. Claro está que em populações muito particulares (ex. no Amazonas) onde o aporte de Hg por outras fontes (peixe e garimpo de ouro) é muito elevado, mais uma fonte não é positivo. Mas para a maioria das populações tal questão não se coloca. Nunca é demais relembrar o que diz a Organização Mundial de Saúde (negrito colocado por mim):

“…no additional studies of the safety of thiomersal in vaccines are warranted and that available evidence strongly supports the safety of the use of thiomersal as a preservative for inactivated vaccines. GACVS believes that consideration of additional evidence suggestive of the contrary should be based on studies using the same high standards of epidemiological and causal inference needed for scientific research.Thiomersal allows millions of people worldwide to have access to life-saving vaccines and to date, no other safer and equally efficacious alternative has been identified for many vaccines

Fonte: WHO, Global Advisory Committee on Vaccine Safety, June 2012

Até à data nenhum estudo epidemiológico demonstrou qualquer associação entre vacinas ou vacinas contendo mercúrio e autismo!

Até breve!

Referências:

Para além dos links ao longo do texto outras leituras úteis (um pouco mais específicas):

  • Clarkson, T. And Magos, L. 2006. The Toxicology of Mercury and its Chemical Compounds. Critical Reviews in Toxicology, 36: 609-662.
  • Rodrigues, J., et al. 2015. Toxicological effects of thiomersal and ethylmercury: Inhibition of the thioredoxin system and NADP(+)-dependent dehydrogenases of the pentose phosphate pathway. Toxicology and Applied Pharmacology 286:216-223.
  • Branco V., et al. 2014. Mitochondrial thioredoxin reductase inhibition, selenium status and Nrf-2 activation are determinant factors modulating the toxicity of mercury compounds. Free Radical Biology and Medicine 73: 95-105.

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3 thoughts on “Frank Zappa, Cosmik Debris e Pseudociência

  1. Olá Vasco,

    Muitos Parabéns pelo teu blogue. Embora não seja fã de Zappa, sou também amante da música e cientista por isso identifico-me bastante com este blogue.
    Parabéns também pelo teu primeiro post. Escreveste sobre um assunto muito importante e de forma clara, objectiva e, ao mesmo tempo, apelativa. Obrigada 🙂

    Venham mais posts!

    Gostar

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